Durante cerca de cinco horas por semana – normalmente duas e meia no domingo à tarde e outras duas e meia na quarta-feira à noite – minha esposa costuma, via de regra, ficar meio irritada comigo. São momentos em que eu me desligo de tudo e, confesso, acabo nem ouvindo direito o que ela fala. Pois são os momentos em que o Flamengo joga.
Na verdade, eu não entendo muito o motivo da irritação. Ela me conheceu assim, em 1992, ano do pentacampeonato brasileiro do Mengão, e costumava aguentar coisa pior, já que antes eu ia com bem mais frequência ao Maracanã. E olha que uma ida ao Maracanã levava muito mais que duas horas e meia. Tinha o esquenta num boteco ou na casa de amigos, o jogo em si e a comemoração ou o engarrafamento posterior. Pode botar aí umas cinco horas dedicadas ao futebol naquela época.
Hoje em dia, absolutamente todos os jogos do Campeonato Brasileiro são transmitidos pela TV, seja aberta ou fechada. E eu tenho o pacote de pay per view em casa. É um luxo ao qual me permito, pois, já com 40 anos na carcaça, não tenho a mesma disposição de dez anos atrás para ir ao Maracanã. Procuro escolher bem os jogos que vou assistir in loco.
Meus dois filhos ainda são bem pequenos. Apesar de o mais velho, de seis anos de idade, já gostar de usar a camisa rubro-negra e gritar gol nos jogos do Flamengo, ainda não completei a lavagem cerebral. Já com meu sobrinho Cauã, confesso que fracassei na seara futebolística. como já contei por aqui, consegui doutrinar o moleque dentro da música pesada, até porque, existe uma certa ligação com seu universo emo. Mas, infelizmente, ele parece nem saber quais são as cores do uniforme da seleção brasileira.
Pensando nisso, lembrei de como era o futebol na minha infância e adolescência e fiz um paralelo com os dias de hoje.
Logo que os jogos acabavam no domingo, a molecada saía à rua, para ouvir os comentários no rádio e fazer a própria resenha esportiva. Além disso, a segunda-feira, no colégio, podia ser o céu ou o inferno. Se o Flamengo ganhasse, eu e o resto dos rubro-negros caíamos na pele da torcida arco-íris. E quando perdia, era preciso aguentar a gozação.
Hoje em dia, vejo que as redes sociais têm se tornado um espaço propício para resenhas e gozações que, antes, aconteciam nas ruas ou no colégio. Honestamente, acho que é tão saudável e válido quanto era antigamente, apesar de eu achar difícil ser mais divertido do que naquela época.
Não sei como a molecada tem feito hoje em dia, fora do Twitter, por exemplo. O Cauã não me dá esse feedback, nem no mundo offline e nem na web, pois não participa de nada ligado a futebol. Além disso, meus filhos ainda estão pequenos. Mas me lembro como eu adorava ver, principalmente depois que o Zico surgiu, o sofrimento semanal nas caras de vascaínos, botafoguenses e tricolores.
Seja cara a cara ou em 140 caracteres, a rivalidade do futebol é algo intrínseco em nossa cultura e é interessante ver tudo isso transportado para a web, exceto nos casos em que as redes são usadas por criminosos, que marcam no mundo virtual as brigas para o mundo real.
Aliás, na minha época, volta e meia aconteciam umas briguinhas, quando a gozação extraploava um pouco, mas era de leve. De repente, hoje em dia é até uma boa a molecada discutir tudo no Twitter no domingo e já chegar no colégio, na segunda-feira, de forma mais tranqüila, falando de outras coisas. Assim, até as peladas do recreio podem ficar menos nervosas e com menos chances de ferimentos e inchaços nas canelas.